quinta-feira, 14 de abril de 2011

Perdida

Ela tinha duas sensações temporais completamente distintas, parecia haver dois relógios contando o tempo ao seu redor. O primeiro era o que contava o tempo daquela sala, onde ela tinha que cumprir as oito horas de trabalho que pouco lhe interessava, esse passava muito devagar, e ela podia ouvir o barulho dos ponteiros se movendo em câmera lenta, as vezes ia tão devagar que parecia que tinha parado, era tanto tempo ali dentro, que ela não sabia o que fazer com ele naquele espaço pouco criativo.


Enquanto isso o segundo relógio contava o tempo de todo o resto do mundo, de tudo que acontecia pra fora daquela sala, os minutos mudavam como os segundos, e ela só enxergava a luz do display, rápida, enquanto eles trocavam. O mundo todo produzia informação na velocidade do segundo relógio, e ela simplesmente não conseguia entender como eles conseguiam, como podia tanta coisa acontecer ao mesmo tempo, e todo mundo absorvendo aquela massa de novidades a cada instante, ela se sentia uma incapacitada por não dar conta, por se perder, como se todos os outros tivessem nascido com aquela habilidade, que havia sido negada à ela.

Além desses dois, havia também um terceiro marcador de tempo, que ela tinha dificuldade até de chamar de relógio. Esse não marcava o tempo externo, apenas o interno. Marcar, também pode não ser o termo, era difícil contabilizar o que ocorria nessa dimensão, ali o tempo parecia não ter uma sequência normal, não era muito rápido, nem muito devagar, era uma mistura de passado, presente e futuro. Seu passado parecia ecoar a todo tempo, querendo ditar padrões para o futuro, mas nenhum dos dois estavam acontecendo. O presente parecia uma falha no sistema, uma caminho errado entre o passado e o futuro. A mistura das lembranças com as projeções fazia com que o presente parecesse irreal,era abstrato demais pensar no agora, com tanta coisa acontecendo em todos os outros momentos.

Parecia demais para ela convergir todas os seus três tempos, era como se estivesse no limbo.Não adiantava tentar confiar naquele um minuto mostrado por números em um relógio REAL preso na parede. Ao passar podia representar um profundo vazio de atividades, um milhão de informações novas espalhadas pelo mundo, além de opniões, idéias, reclamações, e uma série de atos que aconteceram e que iriam acontecer. A dimensão tempo nunca pareceu tão ilógica, era tempo do corpo, o tempo da mente e o tempo do mundo. Conseguiu resumir o seu maior problema em uma pergunta: como fazer para funcionarem juntos?

sexta-feira, 11 de março de 2011

Em uma folha solta

"Pode jogar fora, sua mesa vai ficar cheia de papel desse jeito"
Minha chefe não tinha noção da minha compulsão por escrever, não sabia que pra mim papel nunca sobra, sempre falta. Não importa quantos cadernos eu tenha, sempre vou precisar de mais um.

Olha aquele tão bonito, de papel reciclado, as palavras ali devem ficar mais bonitas, você não acha? E aquele enorme! Dá pra escrever um livro inteiro nele. Ô, mas aquele bloco pequeno é perfeito para andar na bolsa, assim posso levar pra qualquer lugar e não deixo escapar nenhuma idéia, nenhuma palavra. AH! Também preciso de uma mais apresentável, vai que alguém precisa de uma folha. Esses meus amigos são muito mais inspirados do que eu, com certeza em algum momento vão querer.
Agora faltam as canetas, e lapiseiras, cada hora eu prefiro escrever com um, sabe que não dá certo produzir com a ferramenta errada. Aquela caneta colorida vai ficar ótima combinando com a cor do papel reciclado. A mais simples é boa para os textos grandes, escritos em casa, e só eu tô vendo, se acabar eu compro igual. A de ponta que corre mais fácil deixo pra usar na rua, é pra escrever mais rápido, na rua a gente está sempre sem tempo mesmo. A vermelha eu separo para o que for muito intenso, acho que dá mais impacto na hora de ler.

De repente, quando mais preciso, saí sem nada. Nessa horas vale guardanapo e caneta emprestada. Então eu penso: precisava de mais papel ainda.
Chego em casa e tenho todas aquelas opções, cadernos, blocos, folhas soltas, mas as idéias se foram, e a conclusão é de que preciso de mais palavras.
E nesse desencontro de palavras e papéis, cada um aparecendo na hora que quer, fico sempre precisando de algo, e o pior é preciso daquilo que eu sei que tenho.

terça-feira, 1 de março de 2011

Picture

Mesmo não sendo muito de olhar para o céu a noite, sentar perto da janela me levou a fazer isso. Tudo bem, acho que não foi só isso, não teria como ignorar aquele brilho. A lua, esse satélite superestimado pelos apaixonados, estava escandalosamente brilhante, ali, "paradinha", entre os prédios e exatamente na direção q eu podia vê-la, as nuvens em volta tão bem desenhadinhas, e eu que não me enquadro na categoria de apaixonados não tive como não reparar. Sem romantismo, meu encanto foi puramente estético.
Minha vontade não era de olhar o céu acompanhada, mas ao mesmo tempo eu queria dividir essa visão com todos, era belo guardar pra mim. Nessa hora fiquei triste por não saber desenhar, muitos outros podiam estar olhando para a lua, mas eu queria compartilhar aquele ponto de vista. Nunca antes quis tanto estar com uma câmera, sei que não sou boa fotógrafo, mas duvido que aquela imagem poderia ficar ruim.
E como me faltava o talento para o desenho e instrumento para a foto, eu escrevi, para poder contar para vocês como foi uma noite linda, e se me faltaram as palavras para descrever, digo exatamente o que senti.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Andar

Essa minha mania começou de um jeito bem comum, na verdade por um motivo bem... vulgar. Em festas, eventos, reuniões sociais de qualquer ordem, eu me separava do grupo para “reconhecer o ambiente”, o que é uma expressão legal para “identificar os caras mais interessantes do lugar”, e era algo que eu queria fazer sozinha, no meu ritmo e com atenção. De repente eu deixei de olhar apenas para os caras, eu olhava para os grupos de pessoas, para o ambiente, para tudo. Ficava observando as interações acontecendo, as pessoas se movendo e tudo aquilo me fazia entrar em contato com a energia do lugar. Até que mais uma vez mudou o meu objetivo, o ato em si passou a ser o foco principal. Passei a andar por andar. Observando meu pé, o chão, o teto, de olho fechado, sem me preocupar para o que olhava, sem me preocupar para onde estava indo. Assim, a cada passo aprendi a valorizar estar comigo em um ambiente cheio de outras pessoas, e aprendi a voltar, valorizando as pessoas que estavam comigo.

sábado, 27 de novembro de 2010

Estátua

Por favor não chora! Não faz essa cara.
Não me deixe ver seus olhos cheios de água.
Você não pode ter sentimentos.
Você não pode ser humana.
Eu preciso te odiar.
Me diz que é só tédio.
Me diz que não é tristeza, não é cansaço, não é fraqueza.
Se você tiver falhas eu não posso te odiar, eu posso não querer o seu mal.
Dê mais um dos seus sorrisos falsos de cera.
sustenta essa máscara.
Eu quero poder tacar pedras em você sem te quebrar.
Eu quero você em aço.
Eu quero você monstro e eu heroína.
Eu quero ser só bondade e você a maldade.
Assim eu me preservo.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

El tiempo

Duas horas da manhã e ela não conseguia pregar os olhos, não conseguia dormir, não conseguia fazer o seu trabalho, não conseguia limpar o quarto, estava imóvel, entregue a inutilidade. Era essa a rotina dos seus dias. Cada instante ocupado com pensamentos sobre ele, o seu mais novo amor impossível.
Ela já estava começando a se questionar sobra a força e a veracidade dos seus sentimentos, parecia que ela estava apenas trocando de sonhos, colocando alvos cada vez mais distantes. Era uma versão piorada de uma adolescente de doze anos apaixonada pelo cantor pop. Ela podia falar com as pessoas que ela queria, as vezes tocar, em alguns casos, depois de várias armações até mesmo beijá-las, mas jamais se transformariam em um relacionamento. No entanto, o pouco contato que ela conseguia não deixava a esperança morrer. Idiota. Se apaixonar por Johnny Depp seria mais inteligente da sua parte, ninguém gasta horas tentando puxar assunto com ator, porque nunca falaria com ele mesmo.
Três horas da manhã, ela já tinha desistido de dormir, vinho e música lhe fizeram companhia, sempre a música, sempre o álcool, a esperança é que até as quatro ele já tivesse feito efeito e ela dormiria sem pensar.
Três e meia uma mensagem depressiva para o seu melhor amigo, aquele que ela não tinha vergonha de agir como uma ridícula.
Quatro horas, dorme finalmente, passa a noite toda com ele nos seus sonhos, em nenhum momento ela fica sozinha, em nada ela se livra dele (ou seria dela mesma, com essa louca obsessão?).
Onze horas da manhã, ela acorda com um sorriso no rosto, falando, alegrando, divertindo a sua volta, escondendo aquele ser que era na madrugada, separando dos outros a sua sombra, fingindo que era só luz.

domingo, 17 de outubro de 2010

Comigo

“Fica aí, senta, bebe mais uma, só pra me fazer companhia.”

“Era justamente você que eu estava procurando, eu sei, não é sua culpa, eu que andei me escondendo mesmo, estava com medo de você, é que tem dias que você está tão insuportável que até eu te odeio.”

“ Essa coisa de você não saber o que quer me deixa maluca, prefiro andar com gente mais segura, ou pelo menos lidar com eles parece mais fácil. Mas hoje você está legal, e isso me faz lembrar do quanto eu gosto de você e dos nossos momentos assim”

“ Mania chata a minha de achar que só porque estamos só nós que estamos sozinhas. Aqui no nosso canto nos entendemos.”

“Eu queria te pedir desculpa por ter te dado tão pouco valor, e ter reclamado de você pra quem quisesse ouvir, assim eu só vou afastar os outros, eu sei. Se você guarda tão pouco rancor dos outros, não é de mim que você vai guardar né?”

“Vamos aproveitar que temos esse dia. Vamos relembrar o que há de melhor na gente. A gente tem muita história pra contar, muita coisa que ainda não foi conversada direito. Toma mais essa”

Em um ato de saudação ela levantou o copo para o seu reflexo no espelho.

sábado, 16 de outubro de 2010

Friends

Um pouco diferente do que eu costumo escrever.

Nasci em uma geração pós-Friends, e fui profundamente marcada por isso, assim como muitas pessoas que eu conheço. Nós somos aqueles que não amadureceram com eles, porque quando a série acabou éramos adolescentes ainda, nós não nos sentíamos um deles, eles eram modelos para o nosso futuro. A questão ali não era só o humor, as piadas, as situações engraçadas, era a amizade, o companheirismo. Quem não gostaria de compartilhar ao começo da vida adulta com os seus melhores amigos? Quem não gostaria de ter com quem contar nas horas difíceis sem ter que correr para os pais? Quem não gostaria de ter segurança em um grupo de pessoas que te apoiariam, mas que ao mesmo tempo saberiam fazer piada de tudo aquilo? Friends representava o processo de transição perfeito entre a vida com os pais e a constituição da própria família. Era a independência, liberdade, sem a insegurança de estar sozinho, ou de ter que cuidar de outras pessoas. Era saber que qualquer situação poderia ser encarada com humor ao invés de dores de cabeça. Era o sonho de qualquer adolescente.
Acredito que assim como eu, a maioria acreditava que seria apenas isso, um sonho. Em uma realidade brasileira onde a maioria só sai da casa dos pais para se casar, dividir um apartamento com amigos parecia meio estranho, distante demais. Alguns dos que tinham que sair de casa antes para trabalhar ou estudar relatavam como uma parte difícil da vida morando com pessoas desconhecidas. Para mim Friends não passava de uma ilusão.
Foi aí que eu tive uma boa surpresa da vida. Tive que morar na cidade vizinha para fazer faculdade. As primeiras experiências realmente foram próximas ao que eu esperava, uma tortura. Um obstáculo a vencer para poder estudar. Até que fui conhecendo pessoas que pareciam ter os mesmos ideais que eu, que tinham a mesma vontade de fazer a convivência dar certo e ir além. Nós seis (sim! Totalmente Friends) que nos demos tão bem conseguimos encontrar um apartamento para dividir e os dias que seguiram foram de uma felicidade que iria além de qualquer imaginação. Tudo que eu buscava encontrei ali: amizade companheirismo, apoio, diversão, motivação.
Essa é a minha vida agora, a melhor fase de transição. Cada dia é uma coleção de risos uma aprendizagem em conjunto, uma troca de experiências onde a minha vida não é só minha é compartilhada com pessoas que se importam, que dividem amor.É repleta de piadas do Chandler, de futilidades da Rachel, de viagens da Phoebe, de obsessões da Mônica, de nerdices do Ross e de cantadas do Joey.
É uma experiência repleta de sentimento, aquela ligação abstrata e incrivelmente forte que havia entre eles é perceptível onde eu moro. O lugar onde tudo se resolve, onde o choro vira riso, onde vidas que nunca se encontrariam fazem todo o sentido porque estão juntas.
Pode parecer boba, mas sou apaixonada por essa letra: i'll be there for you

terça-feira, 14 de setembro de 2010

A fim de te acompanhar

E de repente a gente começa a ver sentido de novo em músicas que falam de amor, de paixão. Aquelas mesmas que nós achávamos tão bobas, tão fora do real, coisa de quem não vê o mundo de verdade, coisa de quem não viveu o fim de um relacionamento.

Besteira! Ilusão nossa achar que quem sofreu sabe de tudo, que a felicidade está guardada só para aqueles que ignoram a dor, que ela só acontece uma vez na vida.

Cada pessoa que conhecemos é um novo mundo, cada novo contato mil possibilidades, cada relacionamento outras músicas.

E assim a gente redescobre o gostinho de flutuar ao invés de andar, de sonhar ao invés de pensar, de dançar ao invés de se mexer e de ouvir melodia ao invés de barulhos.

A gente volta a acreditar em magia, em coincidência, em destino, em vidas pessadas e no outro.
escrito por quem ouve: ensolarado, presente para a T. que me presenteou com a história que me inspirou, e que está ouvindo: o último romance.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Azar e sorte

Queimar o almoço é azar.

Chegar na hora que ônibus vai sair é sorte.

Não encontrar na festa a única pessoa que você queria ver é azar.

Fazer um comentário sobre a festa na frente da pessoa certa é sorte.

Não ver a ligação da pessoa que você mais precisava na hora é azar.

Receber uma mensagem surpreendentemente boa pela manhã é sorte.

Beber para ficar alegre e passar mal é azar.

Beber para ficar alegre e não sentir efeito nenhum também é azar.

Beber para ficar alegre e beijar quem não devia é porque você tem fogo mesmo.

Beber para ficar alegre e chorar é porque você é meio depressivo.

Acreditar que em todas as outras situações você teve sorte ou azar é observar muito pouco a vida.

sábado, 11 de setembro de 2010

Bloqueio

As formas de tentar contornar e as fugas são infinitas. Os motivos também são muitos, pouca é a coragem para admiti-los. Remoer as questões, pensar, tentar achar um motivo, uma razão só travaram a escrita.

A pressão de tentar o melhor me consumiu. Saber que outras pessoas liam me fez querer agradá-las. Só faz sentido escrever pra mim, só eu fico desapontada, só eu preciso encarar as minhas besteiras. As minhas inúmeras inseguranças, abertas, expostas, óbvias em cada palavra que eu escrevo, em cada texto, me deixando vulnerável a cada pessoa que possa estar atenta. Infelizmente não sei escrever sem me doar, sem me colocar no papel.

Nas minhas fugas, tentei escrever sobre os outros, sobre sentimentos alheios, testei outros horários, mudei meu ambiente, busquei inspiração no cenário, achei que a solução poderia ser a estética na produção, nada disso funcionou.

Nas minhas tentativas eu percebi que só escrevo para combater os meus medos e fugir deles é o mesmo que me bloquear.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Para quem serve a arte?

A arte só serve pra pessoas que choram.

A arte só serve pra pessoas que precisam esquecer alguém.

A arte só serve pra pessoas que não agüentam a vida.

A arte só serve pra pessoas que querem extrapolar a realidade.

A arte só serve pra pessoas que sentem curiosidade.

A arte só serve pra pessoas que querem sentir prazer.

A arte só serve pra pessoas que querem lembrar.

A arte só serve pra pessoas que vêem beleza na vida.

A arte só serve pra pessoas que sofrem.

A arte só serve pra pessoas que precisam fugir do cotidiano.

A arte só serve pra pessoas que querem dizer algo e não conseguem.

A arte só serve pra pessoas que querem conhecer outros mundos.

A arte só serve pra pessoas que precisam se conhecer.

A arte só serve pra pessoas que..., pra pessoas.

domingo, 15 de agosto de 2010

Reflexões na pista de dança

Dançando...

Lama no pé, suor no corpo, fumaça no cabelo, sabão na alma.

Alma lavada, alma suja, alma livre, sem alma, existe alma?

O efêmero que satisfaz, que alegra, não tem finalidade, mas faz todo o sentido.

Fugindo...

O coração seguindo o ritmo da música é melhor que o coração apertado, soltar o corpo é melhor do que deixar ele parado, a mente em branco é melhor do que ela cheia de vozes que não se encontram, estar fora de si é melhor do que estar preso em si.

Às vezes a culpa é melhor que o medo.

Vivendo.

Você é

Milhões de pessoas que existem dentro dessa palavra.

Assim como o EU também podem ser muitos.

Não há construção de história, não há sentimentos sem nós dois, seja lá quem formos.

O que eu gosto mesmo é de falar pra você, nem que esse você seja eu, afinal eu também preciso ouvir certas coisas.

Vamos conversar todos nós, você, eu e essas três ou quatro vozes na minha cabeça.

Todos nós precisamos ouvir.

Todos nós precisamos nos expressar.

Todo mundo precisa escrever e ser escrito.

Somos todos passíveis de ser musa e poeta.

Você e Eu, somos os únicos personagens de qualquer história.

É só escolher em qual se encaixar.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Narrativas

Ela depositou todos os seus sonhos em alguém mais uma vez. Ele parecia tanto com um príncipe encantado, ele agia como um, falava como um, era o mais próximo que ela havia visto de um, então ela se convenceu de que ela o havia encontrado. Ela só esqueceu que príncipes não existem, e por trás do seu conto-de-fadas só poderia haver drama ou comédia, era só escolher, talvez um pouco de conto erótico, tudo dependia pra onde ela iria levar.

Cansada dos contos eróticos, dos dramas e das comédias ela se esforçou pra protagonizar um romance, mas não reparou que ninguém a veria como a mocinha e era tarde demais pra mudar uma história cujo começo já estava escrito.

Seu príncipe partiu seu coração, mas ela insistiu, confundiu coragem com cabeça-dura e achou que era uma heroína. Se convenceu de que outra que era a vilã, loiras sempre são, e não olhou direito para o seu personagem. Na segunda gafe do príncipe ela viu seu conto destruído e os rumos de drama que a estória havia tomado. Pensou em todas as possibilidades, inclusive em transformá-la em roteiro de telenovela mexicana, como choros, escândalos, exposições e nomes compostos, mas ela não suportaria uma dublagem mal feita da sua vida. Então percebeu que aquele conto de fadas, sem príncipe, sem princesa, sem seres encantados, na verdade não era. Chegou no máximo a ser um piloto de seriado americano, um projeto falido. Nem ela investiria na sua estória. Cansada desses gêneros resolveu abandonar e ir atrás de algo novo.

Quem sabe um dia sua vida se transformaria em poesia.

Passagens da madrugada

Pá! O barulho alto de algo pesado caindo, e todas as pessoas, aproximadamente uma dúzia, no ônibus se viram para olhar. Às três horas da madrugada é normal encontrar bêbados em qualquer transporte púbico, mas ninguém esperava ver o corpo de um homem adulto no meio do corredor, porque acabara de cair do banco na curva. Alguns segundos de silêncio pra poder entender o que estava acontecendo, e um jovem que estava sentado no banco de trás se levanta pra ajudá-lo, e o homem que estava sentado ao lado do bêbado também se coloca no serviço de devolvê-lo ao lugar. O corpo mole e obediente se aninha feliz, apoiado no corpo do seu companheiro de banco, um homem grande que ocupava mais que a parte do espaço que lhe cabia.
Antes que todos voltem aos seus assuntos normais da viagem, mais alguns segundos sem se olhar pra poder controlar o riso, a desgraça do outro não deveria ser engraçada, mas era. A cada curva o corpo balançava, e todos olhavam, até que perceberam que nada mais ia acontecer e o bêbado deixou de ser o entretenimento. Mas aquela era sua noite, ganhou mais uma vez a atenção quando pegou o celular e começou a falar uma mistura de sílabas, aonde poucas se tornavam palavras. A sorte do alvo da ligação era que provavelmente ele não tinha conseguido discar os números. O celular e a mão viraram o recheio do sanduíche que ele fazia com a cabeça e o ombro e permaneceram assim mesmo depois que ele havia desistido de emitir sons.
De volta as conversas, até o novo: Pá! O riso de descrença veio antes dessa vez. O jovem do banco de trás mais uma vez se levantou para ajudar, assim como outro rapaz de um banco mais afastado. O companheiro do bêbado dessa vez estava dormindo. O novo tombo era mais preocupante, o rosto foi direto no chão. Quando foi levantado era possível perceber a roupa imunda e o rosto machucado. As dores que ele sentiria assim que o álcool deixasse de fazer efeito não faziam nem cócegas no momento. Tentando evitar outra queda os dois rapazes o colocaram no banco do outro lado que estava com os dois lugares vazios. Difícil foi arranjar um lugar pra colocar o celular que havia voado para longe, pois o dono estava incapaz de segurar, por fim acharam um bolso e deixaram ali.
E quem disse que bêbado não sente nada? É um estado no qual o emocional aflora e a pessoa fica extremamente carinhosa/carente. Nem cinco minutos depois que o sujeito foi deixado no banco ele acordou, percebeu a solidão e voltou para compartilhar o banco apertado com o seu companheiro. Para se certificar de que permaneceria ali, entrelaçou o seu braço no dele, e apoiou a cabeça no seu ombro. E assim ficaram até o ponto final. Chegando ali o jovem cutucou os dois para que se levantassem. Eles apenas se mexeram, mas continuaram ali, um entorpecido casal.
- Será que ele vai tentar lembrar como conseguiu esses machucados amanhã? – perguntou uma das garotas que estava com o jovem.
- Espero que não lembre. Dos efeitos do álcool, a amnésia é o melhor.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Uma menina boba

- Não seja tão boba. – o sorriso no rosto dela morreu.

- É inevitável.

- Você poderia pelo menos não ser tão inocente, tão simples. – a expressão dele dava sinais de irritação como se estivesse falando de um animal que fazia muito barulho.

- Não entendo sua paixão pelo complicado. É insatisfação isso? – um sorrisinho pra tentar salvar o orgulho.

- Olha quem fala, como se você estivesse muito satisfeita com a vida.

- Pelo menos eu estou tentando deixar ela mais simples.

- Mentira! Você só esta perto de mim porque eu sou mais complicado do que você e isso te faz sentir bem. – ela reclamou mentalmente por ele ser tão esperto e por ela ser tão fácil de entender.

- Você é azedo. – saiu assim como uma constatação óbvia, não como uma reclamação ou uma acusação.

- E você é doce demais. – no mesmo tom.

- Quem diria...

- As pessoas enxergam aquilo que querem, nunca menti pra que pensassem diferente. – ela podia visualizar um cigarro na mão dele, pra completar o ar de indiferença, isso se ele fumasse.

- Isso não quer dizer que foi verdadeiro. – mais um sorriso triunfante.

- Está vendo, você não é tão boba, se esforce mais. - ele se levantou. – Um bom dia pra você, preciso ir agora. – maldita educação! Enquanto ele saía da sala, os únicos movimentos que ela fez foram com os lábios, sem emitir som, mas que diziam claramente F-U-C-K-Y-O-U.

domingo, 11 de julho de 2010

Não adianta procurar pelo príncipe encantado se você não é uma princesa.

domingo, 4 de julho de 2010

Fonte seca

Você tirou até minha vontade de escrever, de tão sem poesia que você é. Nada de profundo, nada, nada de belo, nada que possa ser expresso, nada disso há em você.

Você abafa meus sentimentos, sufoca minha paixão, mata o meu lirismo.
Como é possível que você possa roubar minhas palavras, meus pensamentos, minha inspiração?

Se eu não me forço me entregaria de novo ao vazio que há ao seu redor, seria sugada pelo buraco negro de idéias e estaria mais uma vez presa na sua superficialidade.

Sua presença seca minha alma e deixa no lugar um corpo árido e estéril.
E o que mais me revolta é que até mesmo esses efeitos, você ignora.
E eu sinto que está sem final.

Cold Shoulder

Certas músicas nos lembram alguns momentos, já outras músicas nos fazem criar momentos:


Corpos ainda juntos, suados, cansados. Uma conversa descontraída, com poucas palavras, própria praquele momento, até que:
- Só não se acostuma tá.
Ela se afasta, pra olhar melhor com uma cara de indignação e surpresa, porque aquela frase do nada? Ele continuou:
- Você vai ter que dividir.
Pro ar pretensioso dele ela soltou uma gargalhada. E falou com um sorriso que só podia ser chamado de safado.
- Eu não tenho problemas em dividir, se você também não tiver. Até porque nunca falamos em exclusividade.
Silêncio. Mais alguns minutos e se levantam vestindo a roupa. Ele tentando decifrar a reação dela, e ela com a melhor cara de que nada aconteceu, mas por dentro querendo matar aquele idiota insensível. Porque jogar na cara? Ele também tinha que dividi-la, mas ela fazia questão de esconder. Ele estava cada vez mais incomodado com o silêncio do ritual de arrumação:
- Tudo bem? No que você está pensando?
- No meu brinco que eu perdi agora.
- É só um brinco.
- Mas eu gostava muito dele, se você achar meu brinco de pena depois me avisa.
Seguiram pra casa dela, conversando mais uma vez como se nada tivesse acontecido. Conversavam sobre questões filosóficas sobre a vida e sobre o que acreditavam ser características pessoais. Como dois amigos ou apenas conhecidos, exatamente como ele sempre a tratava fora do quarto. Apesar dos seus sentimentos ela já havia aceitado. No entanto ele tinha necessidade de reforçar esse afastamento com palavras. Chegaram na frente da casa dela, prontos pra despedida, quando mais uma vez ele abriu a boca pra machucar:
- Se tudo der certo eu vou estar namorando na quarta-feira.
- Como assim tudo der certo?
- Eu vou encontrar minha ex-namorada, e vou pedi-la em namoro de novo, ainda não a esqueci.
- Acontece. – O que ele queria ouvir? Boa sorte?
Despediram-se, quase como se fossem amigos. Ele querendo afastá-la, ela querendo matá-lo. Um nó na garganta dos dois. Não entendiam como podiam ser tão frios.